“Fulano é gente boa, trabalhador, de família humilde” Humilde ou pobre? Vamos analisar?

Por Sonia Cunha

Mulher, Irmã, Amiga, Servidora Pública Municipal, Mentora Acadêmica, Mestre em Letras pela Universidade Federal do Tocantins (UFT)

 

De maneira recorrente ouvimos discursos do tipo “Fulano é trabalhador, honesto, de família humilde.”. Porém, a pergunta é: qual o sentido da palavra humilde nessa expressão? Seria um eufemismo para a palavra com o significado de alguém virtuoso, modesto, submisso como está grafado no dicionário Aurélio ou humilde no sentido de uma virtude?

Como estudiosa da linguagem, adianto que os sinônimos não são perfeitos. A Semântica, teoria que trata da problemática do significado, especificamente a Formal, nos ensina que os sinônimos não são perfeitos, ou seja, a depender do contexto em que determinada palavra é utilizada, os efeitos de sentidos que ela produz se modificam. Isso porque significado não é um objeto concreto que se possa pegar, apertar, cheirar. Basta lembrarmo-nos da palavra amor. Quando afirmamos “eu amo minha mãe”, a palavra amor ainda é insuficiente para expressarmos o sentido que carregamos conosco. E ainda que fizéssemos uma lista, não faltariam palavras a serem acrescentadas; isso também serve de maneira oposta.

Partindo desse princípio, pobre e humilde na frase “Fulano é gente boa, trabalhador, humilde” nota-se a existência de no mínimo duas formações discursivas distintas. A primeira é a do politicamente correto em que se utiliza o eufemismo correlacionando pobre a humilde como sinônimos. Sublinha-se que, na sociedade midiática contemporânea essa figura de linguagem é utilizada de maneira recorrente, todavia, há uma preocupação por parte do locutor, por antecipação, em suavizar a expressão, em ser polido, em não ofender o público-alvo. Em termos práticos, “Fulano é humilde” porque soa melhor do que se dizer, “Fulano” é desprovido de dinheiro, vive em escassez, sem dinheiro, como um miserável (significado de pobre).

A segunda formação discursiva que sustenta o uso de humilde como sinônimo de pobre é a religiosa – “aprendei de mim que sou manso e humilde”.  Nesse contexto, o argumento é que ser pobre não se limita à falta de dinheiro ou bens materiais, mas também à pobreza espiritual, que, se não for bem monitorada pelo indivíduo, impedirá sua salvação divina. Em outras palavras, seria o mesmo que proferir: “fique tranquilo, pois, se seguir todos os preceitos divinos, o reino dos céus estará garantido a você”.

Há algum problema em ser justo? Não, devemos sê-lo. O que trago aqui é a confusão (ou não), do uso da palavra humilde como um sinônimo perfeito para pobreza, pobre. Entretanto, Russel nos ensina que as expressões nunca denotam sentidos sozinhas, isto é, em cada uso possuem um significado específico. Tanto é que de maneira indiscriminada os textos bíblicos como “Fiquem alegres e felizes, pois uma grande recompensa está guardada no céu para vocês (Mt 5,12)” são utilizados como uma estratégia para excluir o que é diferente de mim, daquilo em que acredito.

Cabe ressaltar que muitos são os referenciais teóricos que nos apresentam a crueldade humana sustentada no discurso da maldição divina, apagados da história -negros, pobres, prostitutas, crianças, ciganos, deficientes, travestis, dentre outros). A quem interessar, na Grécia Antiga as pessoas surdas, segundos os filósofos que tanto veneramos, não eram dignas de viverem em sociedade. Na Idade Média, seguindo os preceitos da Igreja Católica, os surdos não poderiam se salvar, pois não poderiam ouvir a palavra de Deus.

Dessa forma, esse discurso autoritário, fundamentado nos textos bíblicos, persiste por gerações até os dias atuais. A população brasileira usa a palavra humilde como um significado divino para a palavra pobre, como aquele que alcançará o reino celeste, mesmo que esteja literalmente passando fome e sem ter acesso aos direitos fundamentais mínimos estabelecidos na Constituição.

Com isso, de tanto ouvir essa tentativa de correlacionar essas duas palavras, decide materializar em palavras esse pensamento que circula minha mente, pois, inclusive, num mundo do politicamente correto, também há que se pensar, inclusive, “nas batalhas” que entraremos. Destarte, defendo a urgência em se repensar o uso e o sentido que nos propomos gerar, pois se a palavra pobre for usada num contexto político, por exemplo, remeterá à falta que o Estado faz em atender as demandas da maioria da população negligenciada (creio que por isso, também, o uso de humilde).

Em suma, quem é pobre é humilde? Pode ser que sim, pode ser que não. Não esqueçamos que também há os pobres e arrogantes e os ricos, humildes e mansos, pois a formação do caráter está além do ser rico ou pobre (acredito Eu). Vigiai, irmãos e irmãs o significado das palavras.

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